Albanisa atendeu o celular:

– É a mulher melancia goiana?

– Sim, é ela mesma…

– Liguei por causa do anúncio no jornal. Você está disponível?

– Estou sim. Quer agora?

– Se você puder… Qual é o seu cachê?

– Cento e trinta. Mas é serviço completo. Onde vai ser?

– É em minha casa. Pode ser?

– Em sua casa? E onde é a sua casa?

– Aqui no Eldorado. Na Rua Algodoeiro, perto da Tancredo.

– Não é longe. Dentro de meia hora. Tudo bem?

– Eu aguardo. Quando tiver chegando, me liga.

– Tudo bem.

Olhou no relógio. Dez e quarenta da noite. A bolsa, como sempre, já estava pronta. Aquele dinheiro vinha em boa hora. Há dias sua filha se queixava de dor de garganta. E o aluguel do apartamento venceria nos próximos dias.

Vestiu-se e ligou para Susana.

– Vem aqui.

Susana morava no apartamento ao lado e, sempre que Albanisa precisava sair, era chamada para tomar conta de Marília. Com isso, ganhava alguns trocados, suficientes para pagar algumas contas no mercado do Zaqueu.

– Cuida bem dela… Se ela tossir, dê o remédio que está do lado da cama…

– Tudo bem, Albanisa. Boa sorte!

Albanisa saiu, desceu as escadas e pegou a moto. Empurrou-a até a rua, pois não queria chamar atenção de ninguém naquele prédio. Não tinha amigos, mas também não tinha inimigos. Só Susana e o esposo dela, Ribamar. Olhou o relógio: onze e dez. O celular tocou.

– Alô? Já estou indo. Chegarei aí em dez minutos. Me aguarde.

Saiu velozmente. Não queria demorar para voltar.

Susana foi até o quarto de Albanisa. Marília dormia. Como de costume, a moça abriu o guarda-roupas de sua amiga e olhou cada um daqueles vestidos. Com cuidado, olhou-os um a um, sem fazer barulho. Queria ter roupas como aquelas, mas como? O que Ribamar ganhava mal dava pra pagar o apartamento. E o que Albanisa lhe dava era muito pouco. Susana sabia que a amiga tinha muitas despesas, pois cuidava da filha, pagava creche e ainda trabalhava em um escritório. À noite, saía para fazer uns programas. E não podia ficar descuidada. Ser bela era o seu maior investimento. Susana se olhou no espelho: poderia ser bonita, desejável. Mas Ribamar era um homem muito simples. Pobre. E estava dormindo, enquanto sua mulher cuidava da filha da puta.

Albanisa entrou na Jatuarana e rumava em direção à Tancredo Neves, quando um cachorro desses de rua cortou a sua frente. Ao desviar, perdeu o controle da moto, bateu no meio-fio e foi jogada contra um muro. Ficou estirada, sangrando. Abriu os olhos e sentiu o corpo doído. Algumas pessoas que estavam em um bar próximo vieram em seu socorro.

– Não se mexe, dona! Vamos chamar o SAMU…

– Coitada dela! Ela vai morrer! Chama um táxi e leva pro João Paulo! É logo ali!

– Não. Se mexer, pode ser pior. O pessoal do SAMU sabe o que fazer!

– Vem logo! A mulher tá toda machucada! Tem fratura exposta!

Albanisa sentiu que alguém a ventilava. Perguntou pela bolsa. Uma mulher disse que a tinha em mãos.

– Por favor, pega o celular, liga pra…

Respirou longamente. Os olhos ficaram vítreos. O celular estava quebrado.

– Ela tá morrendo, porra! Cadê o SAMU?

Uma rádio-patrulha parou. O policial tocou o corpo de Albanisa.

– Essa já era! Sinto muito… Tem algum parente aqui?

A ambulância chegou. O policial abriu a carteira da vítima:

– Albanisa Teixeira de Aguiar. Esse é o nome dela. Vinte e dois anos…

A garota estava demorando. Ligou de novo. Telefone desligado.

– Vagabunda! Podia ter ligado dizendo que não vinha…

Ligou outra vez por desencargo de consciência. Desligado.

– Rapariga do diabo! Me deixou na mão!

Era mais de meia-noite. Decidiu dormir. A piranha não viria mais.

Susana acordou com a tosse de Marília. Pegou o xarope, colocou em uma colherzinha e pediu para a menina abrir a boca.

– Cadê mamãe?

– Ela foi ali na cozinha, mas já já volta…

O relógio marcava duas e vinte da madrugada. Albanisa devia estar em um programa mais animado. Com certeza, entraria mais grana na carteira.

Ribamar acordou. Susana não havia chegado. O que teria acontecido? Eram duas e meia da madrugada. Decidiu ir ao apartamento de Albanisa. Se não fosse pelo dinheiro, pediria para Susana se afastar daquela vadia. Ao sair, viu dois policiais caminhando pelo corredor. Tremeu de medo.

– O senhor conhece Albanisa Teixeira?

– Conheço. Ela é amiga de minha mulher. O que houve?

A mãe de Albanisa veio pegar Marília, pois, afinal, nunca se soube quem era o seu pai. Juntou algumas coisas de sua filha e, antes de partir, abriu o guarda-roupa dela. Viu aquelas roupas, que considerou indecentes. O pastor diria que eram roupas da luxúria.

– Acho que vou tocar fogo nessas roupas…

Susana se despedia de Marília, quando ouviu a afirmação da senhora.

– Não, dona! Não queima não…

– Por quê?

– Elas são boas… A senhora pode dar para a caridade.

– Caridade? Mulher decente alguma usa uma coisa dessas… Desde que Albanisa se perdeu, só passou a usar esse tipo de roupa! Eu é que não quero e eu é que não vou dar pra ninguém!

– Eu posso ficar com elas…

A senhora olhou para Susana. Balançou a cabeça.

– Fique com elas então… Cave a tua própria perdição!

Susana juntou as roupas em um pacote e as levou para casa. Não sabia se ria ou se chorava. Mas pensava que ficaria mais bonita se saísse com algum daqueles vestidos.