Sou contra a idéia de que o homossexualismo é um fato normal, natural. Considero-o um desvio de comportamento, um sentimento desordenado. Dito isso, afirmo que, apesar de ter essa opinião, tenho muitos amigos homossexuais e os trato com respeito, e até o presente momento não tive com eles nenhuma forma de conflito. Deixo claro: eu gosto é de mulher e sempre fui respeitado em minha opção. E assim convivemos pacificamente, sem aquela sombra de homofobia que alguns radicais enxergam por todos os lados. A bem da verdade, creio que o homossexualismo é uma opção e quem é homossexual deve estar disposto a arcar com as conseqüências de seu comportamento, o que, no frigir dos ovos, é uma regra que vale para todos os que vivem em sociedade. Ser aceito ou não independe de ser hétero, homo ou bissexual. Ser aceito passa necessariamente pelo caráter e pela forma como a pessoa constrói as suas relações.

É preciso dizer também que tenho uma profunda compaixão por pessoas que sofrem de algum tipo de limitação mental. O louco não é louco por opção. Há quem ria dos atos de um demente. Eu simplesmente não consigo. Creio que os problemas mentais são como as paredes de um presídio. A loucura é triste e solitária.

O preâmbulo acima serve para esclarecer os sentimentos que tive ao ver a reportagem do programa “Plantão de polícia”, apresentado por Dalton di Franco, nas tardes do canal 17, de Porto Velho, no último dia 24/09. Um estudante fez programa com um travesti, de 19 anos, e este, ao cobrar o cachê de R$20,00, viu que aquele não tinha dinheiro. Para garantir que receberia o valor, disse o travesti que se apropriou do cartão “leva eu” (passe de ônibus) do estudante. O caso, como se viu, acabou na polícia e lá o estudante contou a sua versão: o programa seria no valor de R$ 1,00. Feito o programa, o estudante revelou que não tinha dinheiro, teve a sua carteira roubada e o passe retirado.

Eis a trama, que mereceu uma reportagem de quase dez minutos no programa vespertino.

O primeiro a ser entrevistado foi o travesti. Um rapaz franzino, nada ameaçador. O repórter, com muito sarcasmo, procurava extrair detalhes da notícia. Visivelmente desconfortável, o travesti, conhecido por Estrela, procurava explicar o seu lado da questão. O repórter parecia estar entrevistando um palhaço e não uma pessoa presa a uma situação vexatória. Com uma espantosa dignidade, o travesti não se deixou levar pelo tom do repórter: respondeu secamente as questões e não escondeu o rosto.

Depois foi a vez da vítima. Pelo jeito de falar e olhar, ficou claro que o estudante é um rapaz com limitações mentais. Rindo o tempo inteiro e se expressando com certa dificuldade, o rapaz ouviu do repórter perguntas no mesmo tom das que foram feitas ao travesti. O que era um caso policial se tornou um sketch humorístico de muito mau gosto. E o repórter fez questão de puxar o fato para o lado ridículo, no que foi acompanhado por Dalton di Franco, alguém que costuma se apresentar como temente a Deus e paladino da moral.

Sinceramente não vi nenhuma forma de humor no fato apresentado. Temos dois personagens tristes. De um lado, um rapaz que vive como um travesti, exposto a uma vida arriscada. Se por opção, não sei. De outro, um rapaz com limitações mentais, o que não é nenhuma opção.

A primeira questão é qual a importância de se expor em canal aberto uma notícia dessa relevância. Se surgisse como uma denúncia, sobre a prostituição, a violência, a miséria, o máximo que poderíamos acusar o programa é de ser sensacionalista. Mas não houve denúncia alguma. O que houve foi um circo, em cujo picadeiro foram expostas, como aberrações, duas vidas francamente problemáticas. Fez-se chacota com a desgraça alheia.

Os cidadãos Vanderclei da Silva Abadias, o travesti Estrela, e Everton Luiz Nogueira, o estudante, foram expostos de maneira desrespeitosa. No alto de sua empáfia, o apresentador Dalton di Franco esqueceu que Jesus jamais tratou com desprezo os que vivem à margem da sociedade. O Nazareno foi duro com aqueles que, hipocritamente, se arvoravam em serem santos e agiam com toda a sorte de maldades e mentiras. Comparava-os com sepulcros caiados. Chamava-os raça de víboras.

Vanderclei e Everton têm histórias de vida, têm angústias, sofrem e, com certeza, devem ter alguma virtude. E isso o programa se esqueceu de mostrar: o que importa é o circo.

No circo romano, enquanto o rei se divertia, os gladiadores morriam.