O reflexo do casal está no espelho do teto. Próximos, mas não se tocam.

    – No meu sonho estou em uma ilha cercado de mulheres… Todas nuas e disponíveis só para mim…

    – Parece um sonho excelente! Só sonho com perdas… Falta de dinheiro, roubos… Essas coisas!

    – Todas elas me querem. Todas elas se expõem como objetos em uma prateleira. Abertas e felizes. Me querem. Me tocam. Se abrem todas…

    – Que maravilha pra você! Quisera eu pudesse sonhar com coisas assim e não com essas neuroses que me afligem…

    – Mas o sonho termina, quando desce um anjo do céu e me diz: tenho um paraíso eterno para ti, mas tens que deixar essa ilha!

    – E aí é que começa o pesadelo?

    – Com certeza! Me vejo atingido por uma dúvida enorme. Aquelas mulheres todas me querendo. Aquele mundaréu de vaginas e peitos e bundas e o anjo me apontando um céu de sonhos, longe da morte…

    – Baita dilema!

    – E eu faço a opção!

    – Qual? O céu ou as mulheres?

    – Eu opto pelas mulheres, pelo sexo fácil, por aquele mar de peitos e bundas e bucetas…

    – E aí?

    – Aí que, quando o anjo pergunta de novo, eu digo: não! Prefiro o que o mundo tem a me oferecer aqui e agora! E o anjo vai embora… E eu olho as mulheres e elas começam a entristecer… Algo começa a mudar em mim e isso as deixa assustadas…

    – Por quê?

    – Olho para o meu peito e não vejo nada. Só um oco imenso. E, por mais que eu tente, não consigo uma só maldita ereção… Não consigo! Não consigo! Uma das moças me dá uma pílula, mas não funciona! E eu vou secando e caindo. E as mulheres partem, somem, desaparecem…

    – Que sonho louco!

    – O pior é que eu olho para o céu e chamo pelo anjo. E uma voz grita: é tarde demais, Alcides! É muito tarde! E a ilha começa a crescer. E eu me vejo só como sempre…

    – Pelo menos comigo você foi muito bem… Funcionou direitinho!

    – Funcionei? Isso não é papo de… garota de programa?

    – Funcionou sim, seu Alcides… (falando baixinho:) eu até gozei…

    – E uma puta não pode gozar?

    – Puta não, seu Alcides! Acompanhante…

    – E uma acompanhante não pode gozar?

    – Nem sempre é possível, seu Alcides…

    (Silêncio. Alcides veste a cueca. Jennifer se levanta e vai ao banheiro se arrumar.)

    – Quanto foi mesmo, Jennifer?

    – Cem reais, seu Alcides. Conforme o combinado.