A capa de "Bryter Layter" reflete a inaptidão de Nick Drake

 Não sei o porquê exatamente, mas, ao tomar contato com duas canções de Nick Drake, “At the chime of a city clock” e “Day is done”, cantor e compositor que, confesso, não conhecia, fui mandado para uma outra dimensão, uma outra realidade. De uma beleza única, as melodias de Nick Drake me fizeram deplorar ainda mais a atual produção musical. “At the chime…” até agora ecoa em minha memória. Serve de antídoto contra os forrós eletrônicos e pancadões que infestam nossas ruas.

 

Ao pesquisar sobre Nick Drake na internet, vi que ele é um cantor ainda pouco reconhecido. Seus três discos (“Five Leaves Left”, de 1969; “Bryter Layter”, de 1970; e “Pink Moon”, de 1971) não fizeram nenhum sucesso. Em novembro de 1974, ele veio a falecer, não se sabe se acidentalmente, devido a uma dose excessiva de remédios, ou por suicídio. Ao que parece, Nick Drake tinha uma profunda inaptidão social e compensava isso na música. Obcecado pelo violão, experimentava novas afinações e, com elas, compunha as suas canções. Além do violão, tocava piano, sax e clarinete. Dono de uma voz pequena, Nick cantava com uma doçura incomum.

 

Em “Five Leaves Left”, Nick foi acompanhado por Richard Thompson, guitarrista do Fairport Convention, e Danny Thompson, músico do Pentangle, no baixo. Em “Bryter Layter”, houve a participação de Richard Thompson (em “Hazey Jane II”) e John Cale, do Velvet Underground, em “Fly” e “Northern Sky”. Dave Pegg, do Fairport Convention e, depois, do Jethro Tull, cuidou do contrabaixo. Já em “Pink Moon”, Nick Drake se vale apenas de seu violão, e do piano na faixa-título. São apenas 28 minutos de gravados em duas sessões de duas horas. 

Como se vê, a obra de Nick Drake é pequena. Em uma época em que a música pop e o rock começavam a colher os frutos das sementes lançadas nos anos 60, os discos de Nick Drake não fizeram sucesso algum. Em parte, pelo seu caráter diferenciado, discreto. Em outra, pela negação de Drake divulgar o seu trabalho e fazer apresentações ao vivo. Aliás, no palco, Nick não se sentia à vontade de modo algum e qualquer fato poderia tirar a sua concentração. Era comum ele encerrar um show, porque alguém se levantou ou passou ao seu lado. Folk pastoral, sua música, porém, resistiu à corrosão do tempo e hoje é redescoberta por novos fãs, que ficam, assim como eu, fascinados pela melodia e sofisticada simplicidade do músico inglês.

Vou correr atrás de seus discos. Pois preciso me desintoxicar do lixo que a indústria cultural empurra em nossos ouvidos.