Entrou na boca-de-fumo e perguntou o preço da paranga. A mulher estava acompanhada de um velho conhecido da boca. Um maloqueiro com movimentação no meio da alta classe. O boqueiro ficou espantado: como podia uma mulher tão bonita querer consumir os seus produtos? Deu o preço e recebeu uma nota de cem. A mulher queria tudo aquilo em parangas. Ele estranhou. Comentou algo sobre as intenções da mulher, perguntou se aquilo não era uma armadilha. Ela disse que não era para seu consumo e que não tinha nada a ver com polícia. O companheiro da mulher disse para ninguém se preocupar. O lance era outro.

Ao sair da boca, a mulher entrou em seu carro. Deu uma nota de cinqüenta ao seu companheiro. E disse: “boca de siri!”. Ele: “pode deixar, madame! Nem sei quem é a senhora”.

Escondeu as parangas na bolsa e tomou o rumo de casa. No meio do caminho, muitos carros de polícia. Estava com medo de ser parada numa blitz. Mas o seu objetivo estava bem definido. Tudo iria dar certo. Tudo mesmo.


Danilo ligou para Luciana e disse o que sentia. Estava com saudade. Queria.

Luciana disse que também queria.

Marcaram de se encontrar às quatro da tarde. No motel Afrodite. Como sempre.


Paula ligou para o detetive. O homem havia seguido o marido de Paula durante o dia inteiro.

    – Onde ele está agora?

    – Tá aqui no Tancredo Neves. E pegou a garota…

    – Continua seguindo. E me avisa onde ele vai.

    – Claro, dona Paula. Deixa comigo!


Danilo abriu a porta da suíte. Como sempre, Luciana foi verificar o banheiro, reconhecer o terreno. Era sempre assim. Danilo abriu a geladeira e pegou uma garrafa de água mineral. Luciana gritou que havia piscina na suíte. Danilo sorriu: “você merece, Luciana!”

Logo os dois estavam brincando nas águas. Nus, livres.


Paula e o detetive entraram de carro no motel.

    – Vai querer dar um flagrante? Tenho uma máquina aqui…

    – Não. O que vou fazer é um pouco pior.

    – Dona Paula, se a senhora quer matar os dois, eu dou meia volta agora!

    – Bem que eu gostaria, seu Abílio! Mas acredite: matar não tem graça!

Entraram no carro. Paula saiu do carro, carregando sua bolsa, baixou o toldo da garagem e ficou olhando para ver se alguém se aproximava. Ninguém.

Sorrateira, Paula, seguida pelo detetive, começaram a procurar o quarto onde seu marido e aquela vagabunda estavam.


Luciana abraçou e beijou Danilo. Segurou o seu pênis. Masturbou-o.

Como ele amava aquilo…

Logo os dois estavam na cama. Nus. Livres.


Paula encontrou o carro de seu marido.

    – Safado! Cachorro! Filho da puta!

    – Estou com a máquina. Posso fazer o flagrante.

    – Nada disso. Fique aí vigiando. Confie em mim!

Paula meteu a mão no bolso. Pegou uma chave. Abriu o carro. Tudo estava saindo como o planejado.


Danilo gozou ao mesmo tempo que Luciana. Caiu ao seu lado, surrado e satisfeito.

Aquela mulher era um foguete, ele pensava. Luciana sorria satisfeita. Havia feito o seu homem feliz e isso era o que importava.


    – Vamos embora, seu Abílio! O que eu tinha de fazer…

    – O que a senhora fez?

    – O senhor vai ser bem pago. Esqueça que esteve comigo neste motel…


Seis e meia da tarde. Era hora de voltar à realidade. Danilo tomou mais um banho e começou a se vestir. Luciana ainda comeu uma barra de chocolate. Depois se vestiu. Os dois em silêncio, na tristeza da despedida.

    – Quando nos encontraremos de novo, Danilo?

    – Muito em breve. Darei um jeito nisso. Eu te amo. E isso me motiva a tomar uma decisão.

    – Não estou te cobrando nada…

    – Eu sei. Mas você não merece essa vida…

Saíram do motel. Luciana pediu que ele a deixasse na Amazonas, perto de alguma parada de ônibus. Ele queria levá-la em casa, mas o horário já estava proibitivo.


Paula havia dispensado o detetive, quando viu o marido deixando o motel. Seguiu-o.


Luciana pediu para o carro parar. Parecia querer chorar. Os dois se beijaram.


Paula já havia dado o telefonema.


O carro da polícia se aproximou. A denúncia precisava ser checada. A descrição do carro batia. A placa do carro. Tudo estava de acordo com o telefonema anônimo. Era a hora da abordagem.


Paula disse que amava Danilo. E disse com emoção. Ele sentiu algo diferente na alma. Estava vivendo o verdadeiro amor. Passional, beijou outra vez os lábios de sua amada, que estava sentada, sem saber, sobre um pacote cheio de parangas de merla.


No outro dia, na televisão, Dalton di Franco se perguntava o porquê de tanta gente de bom nível social se envolver com o tráfico de drogas.