A rua onde ficava a casa que Estela me indicou estava estranhamente vazia. Nem sombra de viv’alma. Só a casa destoava daquele ambiente. Parecia se mover.

Cheguei à porta e tremi. A casa fervia. O som estava alto demais e todos ali eram perfeitos estranhos para mim. Só conhecia Estela. Não havia muito o que fazer. O negócio era aceitar o desafio e entrar. Foi o que fiz.

Entrei e vi Estela sentada ao lado de Gaspar. Ela bebia alguma coisa e ria. E eu fui até ela.

    – Você veio?

Senti-me invisível. Por que ela fez essa pergunta tão estúpida? Eu havia prometido ir à festa e fui. Ela duvidava disso?

    – Pega uma lata de cerveja e vem aqui. Conhece Gaspar?

Nunca tinha visto o sujeito. Estendi a mão e ele me deu uma olhada cheia de enfado.

    – Você é que é o tal Marcelo? Estela sempre fala de você…

Pelo jeito de falar, achei que Gaspar fosse gay. As mulheres e os gays se dão bem, pensei.

    – E você é Gaspar, não?

    – Estela falou de mim pra você?

    – Falou.

    – Falou o quê?

    – Que você é um cara legal…

    – Eu não sou legal. Uso substâncias ilícitas. Se a polícia me pegar…

    – Você vai literalmente tomar no cu! – riu Estela após falar tamanha besteira.

    – E tu vai comigo… vai ser o meu cu e a tua buceta esfolados! – Gaspar respondeu bruscamente.

Confesso que me senti meio constrangido. Mas Estela logo explicou que a relação entre ela e Gaspar era assim mesmo. Um tinha muita liberdade com o outro. E pediu que eu não me importasse com as bobagens que eles falavam.

Fui até a cozinha e peguei uma lata de cerveja.

Pelo caminho da sala até a cozinha, vi dois homens aparentemente se cortando com giletes e uma garota com cocaína nas narinas. Pensei em ir embora. Onde foi que me meti?

As pessoas pareciam alheias ao mundo. Senti como se uma neblina me cobrisse. Tive um pouco de medo.

Na sala Estela dançava com um homem alto e forte. Gaspar fez um sinal e eu me sentei ao seu lado:

    – Esse aí é primo de Estela. Não fique com ciúmes.

Gaspar parecia saber do que eu sentia a respeito de Estela.

    – Que é isso, Gaspar? Eu e ela somos apenas bons amigos…

    – Eu sei. Bons amigos. Pode ser pra você… Pra ela…

    – Ela te disse alguma coisa?

    – Não. Mas ela fala bem demais de você.

Estela largou o homem e se voltou para mim.

    – Vamos dançar?

    – Eu não sei dançar. Sou mais duro que uma mesa de jacarandá…

    – Eu te ensino. Vem!

    – Vai, Marcelo! Aproveita! – Gaspar me incentivou.

Levantei-me e abracei Estela. Começamos a dançar.

Estela estava suada e seu perfume logo me inebriou. Tocar aquele corpo me desconcentrou e, quando dei por mim, Estela comentou em meu ouvido:

    – É esse o jacarandá duro de que você falou?

Fiquei constrangido e tentei pedir desculpas. Mas fui impedido por um beijo.

    – Essa é a melhor homenagem que você poderia me fazer…

Nunca esquecerei aquele olhar cheio de malícia. Ela virou de costas e, com alguma maldade, esfregou a bunda no meu jacarandá. Respirei fundo para não dar bandeira. Mas ela levou uma das minhas mãos até um dos seus seios. Fechei os olhos: tinha de resistir. E ela conduziu a minha mão até a sua perna direita. Perto do paraíso.

Paramos de dançar e voltamos para o lado de Gaspar, que ironizou dizendo que nunca havia visto tanta indecência.

    – Indecência é essa tua bunda murcha! – retrucou Estela.

    – Minha bunda é mais gostosa que a tua, tabuleta! Não é, Marcelo?

Falando isso, Gaspar se ergueu e quase esfregou a bunda em minha cara.

Ri desconcertado. E comentei:

    – Vocês são foda!

    – Viu só, Estela? Estragou o menino… já tá dizendo palavrão!

Rimos da situação. Tomei mais um gole de cerveja e outro e outro. Estela me beijava e dizia um monte de indecências. Até que…

    – Sabe o que eu quero agora? – ela perguntou.

    – Não.

    – Eu quero foder contigo…

    – Como? – não acreditei no que ouvi.

    – Quero fo-der contigo!

Foi demais para mim. Acostumado a namoros adolescentes, com um ou outro sarrinho, me surpreendi diante de uma mulher que, definitivamente, parecia saber o que queria. Desandei a falar besteira.

    – Que é isso? A gente se conhece tão pouco…

    – É a tua chance de me conhecer melhor.

    – E quando seria?

    – Hoje. Agora. Já.

Senti o coração saindo pela boca. Era mais do que eu esperava. Estela era um sonho prestes a se realizar. Era um bilhete de loteria premiado. Era um dia de sol depois de muita chuva.

    – Agora?

    – Agora.

    – Eu estou meio sem grana. Ir a um motel hoje não dá.

    – Quem falou em motel? Vem comigo.

Ela se levantou e me puxou pela mão. Passamos por entre os outros convidados. Ela se dirigiu a uma garota que estava meio bêbada.

    – Hilda, você me deixa usar o quarto?

    – Fique à vontade, Estela!

A casa era grande. Entramos em um quarto e a cama parecia nos chamar. Entre beijos nos jogamos sobre o colchão. Logo estávamos nus e eu pude ver o quanto Estela era linda. E o quanto era devassa. Ela me sugou e me deixou fazer tudo o que tinha direito. Enlouqueci. Tonteei. Gozei feito um desesperado.

Ao acordar, constatei que Estela havia saído. Onde estaria? Procurei as minhas roupas e vi que elas não estavam ali. Tentei abrir a porta do quarto. Estava trancada. Bati. Bati com força. Parecia não haver mais ninguém na casa.

    – Filha da mãe! Será que ela resolveu sacanear comigo?

Gritei. Gritei. Nada. Havia um guarda-roupas no quarto. Abri-o e, para a minha surpresa, não havia nada dentro. O quarto era só a cama e o colchão. Não havia janelas. Bati de novo a porta e nada! Ninguém!

Tentei arrombar a porta. Ela parecia feita de aço. Que brincadeira de mau gosto era aquela?

    – Estela! Estela! Pára de sacanagem! Abre essa porta!

Nada.

As horas foram passando e comecei a crer que realmente caíra em uma armadilha. Teria sido seqüestrado? Ou realmente as pessoas tinham se esquecido de mim?

Sentei na cama. Estava nu. E havia apenas os lençóis. Acabei dormindo.

Abri os olhos.

E Gaspar estava ao meu lado. Sua mão esfregava o meu falo. Assustei-me.

    – Quer sair daqui, Marcelo?

    – Que porra é essa? Quem me trancou aqui?

    – Responde: quer sair daqui?

    – Sai fora, seu viado!

Tentei agredir Gaspar. Ele era mais forte. Muito mais forte do que parecia ser. Em poucos segundos, fui dominado.

    – Quer sair daqui, Marcelo?

    – Eu quero, porra! Quero sim!

    – Quer mesmo? Então você terá de fazer algo para mim?

    – Quer que eu te… coma?

    – Não.

Ao falar isso, Gaspar se ergueu e a porta do quarto se abriu. Entraram seis garotas, todas belas, todas nuas. E elas me cercaram. Gaspar lentamente foi ganhando um outro aspecto. Parecia crescer diante de mim e sua voz mudou completamente.

    – Faça filhos nessas mulheres! Faça agora! Elas estão prontas.

As seis me conduziram para a cama e tive de fazer sexo com todas. Uma por uma. Senti-me exaurido, mas o olhar ameaçador de Gaspar me motivava a prosseguir.

Desmaiei ao gozar dentro da última delas. Devo ter dormido por horas.

Acordei com o corpo lanhado, como se tivesse sido espancado. Várias feridas miúdas cobriam a minha pele.

A porta do quarto estava aberta. E minhas roupas estavam ao meu lado.

Saí e, para a minha surpresa, a casa em que eu estava era uma ruína, um prédio velho como o tempo.

Cheguei em casa e minha mãe me perguntou os motivos da demora.

Contei uma mentira qualquer. De fato, era estranho demais tudo o que ocorrera.

Um pesadelo. Ela jamais iria acreditar.

Fui para meu quarto.

Tirei a roupa e verifiquei meus ferimentos. Como isso aconteceu? Como eu iria explicar isso?

Estela.

Ela deveria saber de algo. E afinal o que era Gaspar? Gente? Monstro?

Chequei alguns papéis e encontrei o que Estela me deu como seu endereço residencial.

Fiquei mais tranqüilo: ela ia se ver comigo.

Descansei. Precisava mesmo descansar.

No outro dia, me dirigi até o bairro onde Estela dizia morar. Encontrei a casa. Aproximei-me e, não sei por que, senti um frio na barriga e comecei a tremer. Havia algo errado. Uma velha senhora apareceu:

    – É aqui que mora Estela?

    – Estela? Já morou uma Estela aqui, mas não mora mais… – a velha parecia assustada.

    – Ela me deu este endereço…

    – Você pode me descrever essa Estela?

    – É morena, alta, tem os cabelos compridos e um sinal na testa, em cima do olho esquerdo…

A velha abriu os olhos espantada com o que havia ouvido. Olhou para trás, como se visse alguém na janela da casa, e perguntou:

    – Você acredita na existência do diabo?

As feridas em meu corpo estranhamente começaram a arder.