O herói do povo observa suas rugas refletidas no espelho.

Como uma montanha fendida

Por terremotos ferozes,

O rosto do herói é um ícone nas igrejas do tempo.


Ele sabe que morrerá,

mas que seja tardiamente,

ele diz para si.

Uma moça nua sobre a cama

aguarda a honra de ser

desvirginada

pelo herói do povo.


O quarto cheira a alecrim

e os lençóis, brancos

como asas de pomba,

estarão em breve manchados

por sangue e esperma.

O herói do povo se deita

e aguarda sua força de homem.


Ela não vem.


O herói infalível treme.

Será?

Olha para a moça:

tão bela, tão bela!

Parece a luz da primavera

cortando as pétalas

de uma rubra rosa.


Mas nada acontece.

A moça treme.

É agora?

O herói a penetra com o olhar

e todos os seus temores se dissipam,

pois

o herói do povo sabe a hora.

Ele faz a hora.

Ele dita as regras.

Ele manda e desmanda naquele país.


A moça estende a mão

e segura a rigidez do herói.

Não sente rigidez alguma.

Em suas mãos, um pedaço

flácido

de heróica carne.

O herói do povo empalidece.


A moça pensa: será que…?

Não é tão feia assim, ela diz a si.

Ele pode estar cansado

da imensa cerimônia de casamento,

das doses de vinho,

uísque,

cachaça.

Deve estar enfastiado dos discursos.

Deve estar de saco doendo,

tanto que ele foi puxado

pelos cupinchas e acólitos

que se locupletam

no palácio.

Ela sabe o que fazer,

mas, se o fizer, parecerá vulgar?

O herói fecha os olhos: vai dormir?

Sorrateira a moça aproxima

seus rubros lábios

da verga flácida do herói.

Enche a boca,

sente o gosto da íntima carne

do herói do povo.


E o herói de olhos fechados.


E ela insiste e nada acontece.


Até que ela cansa e, ofendida, grita:

não tens desejo por mim?

E se despe absoluta,

cheia de peitos e pêlos e carne,

todos os lábios expostos para o prazer.

O herói, calado, olhos fechados.

Ela o toca: um corpo frio.

Lá fora, a noite quente.


Sem respiração.

O herói do povo já não precisa de ar?

Santificou-se?

Obrou milagre?

Ela toca o peito

de tão grande homem

e não sente mais

a batucada da vida.


Os homens dirão por décadas

que a moça matou o herói

com a fúria de sua carne.

E feliz morreu o homem

que a muitos salvou.


A moça hoje dá dicas

sobre o futuro da pátria

e repete, feito ladainha,

as últimas palavras

do herói do povo.

Antes de morrer, ela diz,

ele disse que quer seu povo

mais e mais feliz.

Aplausos!