Hermes amava Alana. E isso era visível. Todos sabiam. Até desconhecidos que os viam juntos percebiam o quanto Hermes amava Alana. Todos viam, percebiam, sabiam. Menos Alana.

Hermes não sabia como falar sobre o que havia em seu coração. Não tinha coragem, pois temia que Alana se afastasse. Era o seu melhor amigo. E a amizade era, para Hermes, faca de dois gumes: como amigo, podia estar junto e ouvir tudo de Alana; mas era também uma luta constante contra o desejo, o impulso de agarrar a sua amada e deixar explodir o seu desejo.

Hermes sofria por amar demais.

Às vezes Hermes se rendia à tristeza. E sofria calado. E quem vinha consolá-lo? Alana, amiga fiel e sempre pronta a ajudar. E ele mentia, inventava um problema em casa. E ela o abraçava. E Hermes, de novo, tinha de conter o dique de desejo.

Até o final da adolescência, Hermes era o galã do bairro. Entrou na faculdade e continuou a maltratar os corações femininos. Foi lá que ele conheceu Alana. E desse encontro nasceu o sentimento novo, com o qual Hermes não conseguia dialogar. E o galã deu lugar a um homem confuso, indeciso, inseguro. E preso a uma paixão.

Alana flanava diante dos olhos de Hermes. Sempre sorrisos, sempre beleza.

Porém houve uma semana em que Alana sumiu.

Hermes ligava e o telefone estava sempre fora da área. Preocupado, foi até a casa de sua amada. A mãe de Alana disse que ela teve de viajar a serviço. Coisas importantes em Vilhena. Hermes ficou mais tranqüilo, mas por que ela não ligou para ele informando sobre a viagem?

Ligou de novo e Alana atendeu.

E ela disse que a viagem havia sido ótima, que conheceu outras pessoas, que houve festa em uma das noites. E, sobretudo, falou de César. E falou com emoção, com açúcar na voz.

Aquilo caiu como sal sobre uma ferida. Hermes sentiu algo excruciante na alma. Pela primeira vez, sentiu ódio no coração. Sentia-se traído.

Ao mesmo tempo, fazia mea-culpa. Por que havia calado o sentimento, sofria agora o golpe do destino. Alana estava vivendo. E ele estava morrendo.

Quem era César? Quem era esse maldito?

Alana sumiu. Hermes ligava. Alana desandava a falar de César. César isso, César aquilo. Hermes guardava em silêncio o seu sofrimento.

Um dia foi Alana quem ligou:

    – Hermes, eu estou noiva!

Ele já sabia de quem.

Os dias seguintes foram de angústia. Sentia-se pronto para o suicídio.

Alana parecia mais feliz. Mais bela. Mais sorrisos.

Hermes conheceu César. Era um rapaz como outro qualquer, até meio sem graça. Mas fascinava Alana de um jeito único. César contava piadas sem graça e Alana ria. César piscava o olho e Alana retribuía. César dizia “te amuuuu!” e Alana repetia. Era um beijo a cada cinco minutos.

Hermes se sentia enojado.

Decidiu se afastar de Alana. Decidiu voltar a viver. Como naquelas canções que tocam nas rádios FM da vida.

Tomou alguns porres para comemorar a liberdade e se abriu de novo para as artes do galanteio.

Em pouco tempo, conheceu Celina e assumiu um compromisso.

Alana sumiu de vez. Nem telefonemas, nem cartas, nada.

E lenta e fortemente Hermes entrou em outra fase de sua vida.

Hermes casou com Celina e ambos decidiram morar em Porto Velho. Ji-Paraná não era mais cidade para o jovem casal, que tinha ambições. E Hermes não queria mais andar por aquelas ruas, nas quais desfilava o seu verdadeiro amor.

Na capital do Estado, o casal conseguiu montar um negócio, teve dois filhos e se tornou conhecido no meio da sociedade da capital.

Em pouco tempo, Hermes se tornou membro de uma casa maçônica. Chegou até a ser convidado a ingressar em alguns partidos políticos.

Mas Hermes não era totalmente feliz. Às vezes um vazio parecia crescer em seu pensamento. Celina era amorosa, alegre, dedicada. Mas não era Alana.

Algum tempo depois, Hermes começou a se desvencilhar de sua imagem de bom marido e bom pai. Tornou-se assíduo na noite da cidade. Passou a beber mais do que o costume. Começou a sair com garotas de programa. Passou a não dar atenção aos filhos.

Celina logo percebeu que Hermes estava se perdendo. Tentou dialogar, mas não foi possível: Hermes não admitia que estava em uma estrada de perdição.

As brigas se tornaram freqüentes. O que era um casal feliz parecia agora uma dupla de estranhos.

E a cisão parecia inevitável.

Hermes começou a rever a vida e a pensar no que poderia ter sido.

De repente, Celina lhe parecia uma esmola do destino. Começou a despejar sobre ela uma violência silenciosa, marcada por um solene desprezo. Passou a diminuir a sua esposa, a tecer comentários maldosos, a insinuar que ela estava gorda demais, feia demais, deselegante.

A princípio, Celina ameaçou uma reação: passou a cuidar da beleza, a fazer dieta, a se vestir melhor. Amava Hermes e não queria que ele a deixasse.

O que ela não sabia, no entanto, é que a razão da aleivosia de Hermes era outra: um banzo de sua época de servidão, subjugado pelo olhar de Alana, o sorriso de Alana, o jeito de Alana. Hermes passou a acreditar que não deveria ter abandonado a sua amada, que poderia ter esperado. Transferiu para si a culpa por Alana não ter aceitado ficar com ele. Por isso precisava se martirizar, se ferir, e, com isso, levar de roldão quem estivesse ao seu redor.

E Celina e seus filhos estavam ali.

Mas o tempo mostrou que, mais e mais, Hermes se afundava na indiferença. Celina decidiu que sua vida valia mais. E passou a ser indiferente com o seu marido.

Um dia, um colega de casa maçônica ligou:

    – Fala, Hermes! Quer curtir um happy hour diferente?

    – Como assim, Reinaldo?

    – Tem uma casa cheia de gatinhas esperando rapazes como nós. Vamos nessa?

    – Com certeza. Quer que eu te pegue?

    – Depois das seis passa aqui…

    – Mulher e cerveja, é o que estou precisando…

Não ligou para Celina. “Dane-se!”, pensou. Encontrou Reinaldo e seguiu para a periferia. Entrou por uma rua de terra e viu uma casa com muro alto e portão fechada. A pedido de Reinaldo, buzinou. O portão abriu e Hermes pôde ver vários carros estacionados em um pátio grande. Desceu e seguiu Reinaldo até um salão, onde havia diversas mesas e música alta ecoando. Havia muitas mulheres ali, algumas curtidas pelo tempo, outras muito jovens. Algumas bonitas, outras nem tanto.

Sentaram-se a uma mesa e Reinaldo foi logo pedindo uma cerveja e chamando uma morena.

Havia outros homens no salão. Todos devidamente acompanhados.

A morena se sentou no colo de Reinaldo e ele começou a bolinar a moça e a falar alguma coisa em seu ouvido. Hermes procurava uma presa com os olhos. Queria uma que se parecesse com Alana.

De repente, seu olhar cruzou com o de um outro homem. E este o olhava fixamente.

Hermes sentiu o susto correndo pela coluna… Sabia quem era aquele homem.

Mais gordo, menos cabeludo, era César, o César de Alana.

O homem se ergueu de onde estava e se aproximou.

    – Boa noite. Eu acho que lhe conheço… Você é de Ji-Paraná?

    – De Ji-Paraná? Sim. Você é de lá também?

    – Minha esposa é de lá. Alana Teixeira…

    – Alana? Eu me lembro. Fizemos faculdade juntos. Era minha vizinha também.

    – Hermes. Esse é o seu nome, não é?

    – Hermes Freitas.

Reinaldo cortou o princípio de diálogo:

    – Já que você achou um amigo, Hermes, me dá licença que a minha neguinha aqui tá querendo carinho. Né não, princesa?

E saiu, abraçado à moça. Os dois entraram no corredor dos quartos e sumiram.

Hermes ficou ali diante de seu objeto de ódio e desprezo.

    – Você está morando aqui nesta cidade, Hermes?

    – Há quase doze anos. E você?

    – Estou aqui a negócios. Moro em Vilhena. Casado?

    – Casado. Dois filhos. E Alana, como está?

    – Ela e eu temos três meninas. Temos uma loja de material de construção, uma das maiores da cidade. Você…?

    – Eu sou dono de uma empresa que presta serviços terceirizados para o governo.

    – Bom negócio…

    – E Alana?

    – Está bem. Teve uns problemas de saúde. Mas está bem. Nada grave. Coisa de mulher.

    – Você está hospedado onde?

    – No Hotel Iara, no Centro. Mas amanhã eu volto para Vilhena…

    – Há anos que não vejo Alana. Mande lembranças minhas… Não sei nem se ela se lembra de mim…

    – Ela lembra. Até estranhou o seu sumiço. Você nem foi ao nosso casamento. Mandamos o convite.

    – Excesso de trabalho. E na época eu tive de viajar…

    – Sei.

Os dois homens silenciaram. Parece que o assunto havia morrido. Hermes perguntou:

    – É a primeira vez que você vem aqui?

    – Não. Sempre que venho a Porto Velho, faço uma visita aqui. Sabe como é, né? Não é malandragem minha. É que… – César respirou fundo, engoliu em seco.

    – Eu sei. Eu sei o que é isso. Homem é assim mesmo. Quanto mais… melhor.

    – Não é só isso. Só estou com Alana ainda por causa das meninas. Ela mudou muito depois que casamos. Ficou desleixada com ela mesma… Sabe quanto ela está pesando agora? Mais de cem quilos. E ela me inferniza, me vigia, diz que eu tenho amante. Cara, eu não tenho amante. O máximo que faço é isso aqui… E digo mais: é por culpa dela que eu venho a lugares como este aqui…

Hermes escutou tudo aquilo com um nó no coração. Sentiu como se uma corrente partisse dentro de si. E ficou ouvindo as lamentações de César como se fosse um sacerdote no confessionário. Silencioso. Um amigo de César o chamou e ele se despediu de Hermes.

    – César, quando você vier a Porto Velho de novo, me liga. – E estendeu um cartão de sua empresa.

César pegou o cartão, olhou-o e sorriu. Minutos depois, saiu agarrado a uma falsa loura na direção do corredor dos quartos.

Uma das mulheres se aproximou de Hermes, tentou puxar assunto, mas logo percebeu que ele não tinha nenhum interesse na conversa. Ele pediu um refrigerante e ficou esperando Reinaldo.

Assim que Reinaldo saiu do corredor dos quartos, Hermes pediu para irem embora. Disse que não estava se sentindo bem.

Às nove e dez da noite, Hermes entrou em casa e foi direto para o quarto. Celina estava na cozinha. Hermes tirou a roupa e tomou um banho. O rosto triste de César não saía de sua memória.

Ao sair do banheiro, viu que Celina já estava de camisola, deitada na cama, lendo um livro.

Por longos segundos, observou a sua mulher. Ela estava linda, foi o que ele pensou. Ela fingia que não havia notado a sua presença. Estavam de mal, como se diz.

Ele se sentou ao lado dela.

E sua vida se refez. Ele havia desatado o nó górdio de sua vida.

E começou a falar de suas atitudes. E, pela primeira vez, admitiu que estava em um caminho errado, falou que queria reconstruir a sua família, pediu perdão pela grosseria e quase chorou.

Celina escutou tudo em silêncio. Parecia surpresa com aquele discurso. Quis dizer que precisava de um tempo para absorver aquilo tudo, mas não pôde. Hermes a abraçou e a despiu com leveza. E eles fizeram amor, como há tempos não faziam.

Hermes amanheceu feliz. E seguiu para o seu trabalho como se tivesse sido curado de uma longa doença.

Celina aguardou a saída do marido. Esperou que os filhos fossem para a escola. Deu as instruções do dia para a empregada. E foi para o quarto.

Abriu o guarda-roupa e pegou um celular, que estava escondido em uma caixa de sapatos. Ligou o aparelho e fez uma ligação. Do outro lado, uma voz masculina, de quem acabou de acordar:

    – Oi, Celina! O que foi?

    – Fudeu tudo, Cláudio!

    – Como assim?

    – Acho que Hermes não vai aceitar o meu pedido de divórcio…

    – Por quê? O que houve?

    – Eu sei lá. Ontem ele chegou diferente à noite. Parecia arrependido. Você sabe…

    – E você? Ficou balançada?

    – Quase. Mas é você quem eu quero.

    – Ele te…?

    – Sim, transamos.

    – Você gostou?

    – Eu gosto é de você, Cláudio!

    – Então fica comigo. Deixa ele. Eu te amo!

    – Eu também te amo, mas as crianças…

    – Elas já são crescidas. Vão entender…

    – Não sei, não sei… Elas são muito apegadas ao pai. E parece que agora que ele decidiu mudar…

    – Você me ama mesmo?

    – Não é assim tão simples, Cláudio…

    – Vem aqui. Vamos conversar.

    – Conversar? Sei…

    – Já fazem três dias… Estou com saudade…

    – Dentro de meia hora estarei aí…

Celina entrou no apartamento de Cláudio. E os dois transaram. E decidiram que Hermes já não merecia viver.