Laura não suportava Marta, esposa de Aristeu, um bom homem, temente a Deus. Pensava Laura que Marta era uma fariséia, enquanto Aristeu era um homem cheio da pureza dos santos, um escolhido por Deus para, mediante a oração e a pregação, conduzir os homens ao Salvador. Laura ouvia Aristeu com atenção e cada palavra que brotava da boca dele caía como um bálsamo em seu peito. Ela não entendia por que ele havia escolhido, entre tantas mulheres, justamente Marta, cuja fama de mulher sem escrúpulos há tempos enfeitava o altar do disse-me-disse daquela congregação.

Laura queria ter sido a escolhida, mas não o foi. Por força das circunstâncias, ou pelo querer de Deus, Aristeu decidiu se casar com Marta. Por isso, Laura não fazia questão de atender aos apelos dos pretendentes, e eram muitos, à sua mão. Orava a Deus. Pedia. Implorava. Uma só chance é o que ela queria, mas havia Marta. A insuportável Marta e sua cara de anjo.

De tanto orar a Deus, Laura uma dia se sentiu abençoada. Grávida do primeiro filho, Marta sofreu uma intensa hemorragia e veio a óbito. Pouco tempo depois, o menino veio também a falecer.

Tragado pela dor, Aristeu teve a sua mais difícil prova de fé. Como aceitar os desígnios de Deus? Como suportar o sofrimento? A congregação se uniu: não podia deixar que o homem de Deus se vergasse, ou viesse a sucumbir às mentiras que, com certeza, o diabo enfileirava diante dele. Laura se uniu à congregação e se aproximou de Aristeu como uma mão amiga, uma palavra de alento, um esteio.

Como que renovado, mas com o rosto marcado pela angústia, Aristeu se reergueu. Decidiu que deveria retomar o seu ministério. Curtido pelo fogo, poderia agora conduzir mais e mais pessoas às sendas da salvação.

Diante do sofrimento de Aristeu, Laura não teve tempo de sentir algum tipo de prazer pelo passamento de Marta. Mas, após alguns dias, pôde finalmente celebrar a sua esperança: seria agora ou nunca! Aquele homem iria para os seus braços consoladores, pois Deus havia escutado as suas orações e, cumprindo os seus desígnios, havia chamado Marta para a glória. Ou para a danação. Passou a se enfeitar mais, a usar seus melhores vestidos, a exercitar, com alguma modéstia, a sua vaidade.

Aos poucos, Aristeu voltou a ser feliz: acreditava que sua esposa e seu filho estavam em lugar melhor, nos braços do Pai, diante do trono de Jesus. E sua força no sofrimento motivou os fiéis da congregação a acreditarem mais ainda na santidade daquele homem. Era um santo. E suas palavras começaram a ecoar em outras igrejas, em outros bairros, em outras cidades. Laura não se fez de rogada: passou a cercar o seu querido e a ajudar em sua missão. Viajavam juntos. Iam a outras igrejas. As palavras de Aristeu eram como bolas de fogo. O apoio de Laura na oração amplificava o efeito da pregação.

E os dois começaram a parecer um par. Um casal. E a congregação começou a ver que havia algo mais entre eles.

Com o tempo, os anciãos procuraram Aristeu e o convenceram que, para a obra de Deus, era interessante que o pregador não fosse só. Aristeu disse que o seu interesse era a missão. Mas Desidério, o mais respeitado ancião da comunidade, abriu os olhos do ainda jovem homem de Deus: há tempos todos haviam notado que Laura o apreciava. E Manassés confirmou que havia tido uma visão: se Aristeu permanecesse só, poderia sucumbir às armadilhas do demônio.

Os anciãos e Aristeu oraram e louvaram a Deus: o caminho de Aristeu era contrair um novo casamento e sua escolhida deveria ser Laura, moça que há tempos se guardava para um homem verdadeiramente servo de Deus.

O casamento foi a festa mais bonita que aquela congregação havia celebrado. Pastores de várias igrejas e denominações compareceram, os corais da igreja capricharam, tudo foi belo e emocionante, melhor até que os sonhos mais belos que Laura havia tido. Terminada a festa, o povo conduziu o casal até a casa de Aristeu. Laura ficou estupefata diante da quantidade de presentes que ambos receberam. A congregação realmente aguardava aquela união.

Finalmente a sós, Laura vestiu uma bela camisola. Seu coração era um tambor. Ela tremia. Era a sua primeira vez. E com o seu amado. Deus havia feito muito mais do que ela havia sonhado.

Deitou-se na cama. Cama nova. E aguardou o seu amado.

Aristeu estava demorando a sair do banheiro.

A ansiedade tomou conta de Laura: era o seu primeiro homem, e ela o amava. E o queria. Mas ele demorava. Pensou em se levantar e bater à porta do lavabo. Mas tinha medo de parecer insistente. Ele viria e a tornaria mulher. Estava decidido desde quando ele disse “sim!” no altar, diante da congregação e de tantos outros irmãos na fé.

Ela fechou os olhos, um tanto sonhando, um tanto cansada. Ele viria. Ele a faria mulher.

Quando deu por si, Laura abriu os olhos e o quarto estava às escuras. Sentiu que sua camisola havia sido erguida até a altura dos seios e suas pernas estavam abertas. Em um golpe, sentiu algo grande e rijo lhe penetrando. Sentiu sua vagina doer. Era agressivo aquilo que a penetrava com tanta força. Gemeu um quase grito. Tentou dizer algo: não conseguiu. Dedos penetravam em sua boca, como se quisessem sufocá-la.

Era Aristeu. E ela entendia o porquê da sua agressividade: viúvo há mais de um ano, tinha muita energia represada. Aceitou a sua sina de esposa e tentou extrair do momento algum tipo de prazer. Não foi possível.

Virada de bruços, ela sentiu dois grossos dedos abrindo caminho em seu ânus. Quis gritar. Não teve tempo. Uma dor intensa a levou às margens do desmaio. Aristeu estava todo dentro dela. Enlouquecido, só parou quando derramou seu grosso e quente líquido.

Em urro de satisfação, o homem se jogou ao lado de Laura e pareceu dormir.

Dolorida, surpresa, muda, Laura tentou dormir. Havia alguma coisa errada. A escuridão lhe penetrou a alma: não era aquilo o que ela esperava. Não mesmo.

Tentou, após algum tempo, cochilar, mas logo sentiu Aristeu sentando sobre ela. Laura foi forçada a abrir a boca e engolir a rigidez de seu esposo. Por longos minutos, suportou o peso e o vai-e-vem. Até a sua boca ficar cheia de sêmen.

Outro urro.

Mais silêncio.

Um pouco mais de tempo, e o homem voltou à ação. Novamente o ânus de Laura foi rompido.

Amanheceu.

Laura começou a enxergar o marido. O dia crescia lá fora.

Por longos minutos, ela fitou aquele homem, para quem se guardou de corpo e alma. E já não sentia outra coisa além de um nojo intenso.

Levantou-se. Seu corpo doía. Sua alma doía. Foi até o banheiro, ligou o chuveiro e vomitou no vaso sanitário. Chorou.

Decidiu se refazer. Olhou no espelho. Foi quando teve a visão que passou a lhe atormentar a vida inteira de casada.

Por trás dela, pelo espelho, viu o rosto ensangüentado de Marta, que gargalhava silenciosamente.

Do lado de Marta, havia um monstro de olhos cinzentos, muito parecido com Aristeu…