O que poucos sabiam é que Adriana era uma mulher feliz. Era como se sentia: feliz, realizada.

Enquanto pensava em sua felicidade, ela varria a casa e pensava nos fatos da noite anterior. Hugo a espancara. De novo.

Tapas, chutes, safanões.

Mas ela continuava feliz. Apesar das dores no corpo.

Hugo saía cedo para o trabalho. Almoçava na obra. Às seis da tarde (era quase um ritual), se reunia com os colegas e ia ao boteco do Zelão. Bebia. E bebia muito.

Chegava em casa depois das dez da noite e começava a ladainha: maldita hora em que casei, está tudo pela hora da morte, aquele filho da puta do mestre de obras é um cuzão, tá olhando o que, sua idiota?

E invariavelmente batia em sua mulher, Adriana. Depois implorava o perdão dela. E os dois terminavam fazendo amor.

Era sempre assim. Rotina.

Adriana terminou de varrer a casa. Olhou o relógio. Eram onze e vinte e a casa estava limpa.

Estava quase na hora.

Foi até o banheiro, se despiu e tomou um banho. Enxugou-se e, do jeito que estava, foi até o quarto. Deitou-se. Fechou os olhos. Cochilou.

Abriu os olhos e era quase uma da tarde. Alguém batia à porta. Ela sabia quem era.


Hugo sentiu uma dor fina no peito, mas não parou o serviço. Continuou colocando tijolos no carrinho de mão. Parou um pouco, respirou fundo e olhou o céu. Havia um azul intenso emoldurando o inclemente sol.


Era uma e vinte quando Adriana entrou no carro prateado. O homem a olhou sorridente:

    – Você está bonita hoje…

    – Eu estou sempre bonita!

    – Corrigindo: você está mais bonita hoje!

    – Melhorou.

O carro saiu em alta velocidade.


Hugo levou os tijolos até a ala norte da construção. Foram trezentos metros difíceis. Tontura, dor no peito, vontade de vomitar. Não há de ser nada, pensou.


Adriana desceu do carro e entrou no prédio. Pegou o elevador e chegou ao sexto andar. Foi até o apartamento 605. A porta estava aberta: entrou.

O homem a aguardava. Olhava pela janela.

    – A tarde está quente… é um dia bonito!

    – É que você está feliz hoje…

Tirou a roupa e avançou para o homem. Ele a observou, enquanto ela se aproximava, com passos leves como se de gato:

    – Essas marcas… Foi o filho da puta de teu marido?

    – O que você acha?

    – Não sei por que você vive com aquele animal…

    – Enigmas da paixão, meu caro! Enigmas da paixão!


Hugo caiu. E ficou estatelado no pátio da obra. Os olhos esbugalhados. A mão ossuda da morte acariciava a sua face.


Adriana parou de repente. O homem estranhou:

    – O que foi?

    – Uma sensação estranha…

    – Acho que estou sendo um tanto brusco hoje…

    – Não é isso. Você está sendo muito gentil… É algo diferente…

    – Quer ir embora?

    – Não. Vamos terminar.

Continuaram.

Ao sair do apartamento, teve de novo a sensação estranha. Guardou o dinheiro na bolsa e desceu pelo elevador. O motorista do carro prateado a aguardava.

Chegou em casa. Entrou rapidamente. Trocou de roupa. Voltou a ser a bem casada dona de casa.

De repente, ouviu as palmas. Havia alguém lá fora.

Abriu a porta e viu Tonho Furtado, o mestre de obras que Hugo odiava.


O velório foi em uma capela alugada pela empresa de construções. Os colegas foram todos. Hugo era um bom companheiro, quase em coro todos diziam.

Ao lado do caixão, Adriana recebia os pêsames gerais.

Hugo parecia dormir. Seu rosto traía um leve sorriso.

A madrugada foi longa. De manhã, o cemitério recebeu um bom número de colegas de Hugo, tristes e surpresos com o fim de um homem tão jovem.

Coração frágil, coitado! Quem haveria de dizer?


Adriana chegou em casa. O silêncio pesava em seus ouvidos.

Deitou-se na cama. Chorou. Muito mais do que ela achava que poderia chorar.

Em sua memória, a imagem de Hugo dizia que eles seriam muito felizes. E que teriam muitos filhos. Doía pensar em tudo o que ficou pelo meio do caminho.

O celular tocou. Era o homem da tarde anterior.

    – Está tudo bem contigo? Fiquei preocupado.

    – Está. Aconteceu um problema. Depois eu te conto.

    – Teu marido? Ele te bateu de novo?

    – Não. Amanhã eu te conto tudo. Prometo.

    – Amanhã não vai dar. Minha esposa me pediu para viajar com ela até Ariquemes. Vou ficar fora uns três dias. Mas quando eu voltar…

    – A gente se vê.

    – Desculpa, tá? Queria muito estar contigo…

    – Me desculpe também. Não fui legal ontem, né?

    – É sempre bom contigo. Você sabe que sim…

    – Quando você voltar, eu farei você ver o paraíso!

    – Promete?

    – Prometo.

Desligou o celular. Pensou no tempo do luto. Quanto dura? Sentiu o sono chegando e decidiu tomar um banho. A água lavou seu rosto e as lágrimas de mais uma perda.