Que merda é essa!

As palavras se perderam no meio dos gritos dos manifestantes. Fumaça preta de pneus queimados. Homens, mulheres e crianças gritando revolta. Uma semana sem polícia nas ruas. Medo, medo, medo…

Um dia de caos faz bem ao espírito: todos odeiam, mas ninguém consegue viver sem um pouco de rotina. Os ônibus parados. Uns preocupados em não perderem os empregos. Os patrões apavorados: pedras nas vitrines, bandidos, armas, tiros. Medo, medo, medo…

Minha rotina, pelo amor de Deus!

Arnaldo chegou em casa cedo. Nada de boteco. Nada de futebol. A mulher falou das ameaças que a cidade sofreu o dia inteiro: arrastões, fugas do presídio e, não bastasse isso, um imenso incêndio numa fábrica de reciclagem. A tevê ligada: será que vão prender o Daniel Dantas? Será que vão prender a Norma? Será que vão prender a Donatella?

A mulher se esticou toda. Sono. Arnaldo viu o umbigo dela.

Ela tomou um banho. Ela passou perfume. Ela vestiu um baby-doll curtinho. Ela se jogou na cama, fechou os olhos, dormiu.

Arnaldo tomou banho. Arnaldo vestiu uma bermuda. Arnaldo se deitou ao lado dela. Ela de bruços: a bunda linda e altaneira.

Arnaldo passou a mão. Ela tremeu. Ele beijou o cangote. Ela gemeu e disse um “pára” totalmente sem convicção. Ela virou.

Os dois se olharam por longos segundos: se beijaram. O bico do seio esquerdo dela encheu a boca de Arnaldo.

O sexo fluiu. Docemente.

Lá fora, a cidade em chamas!